"Se, a princípio, a ideia não é absurda, então não há esperança para ela."
A.E
segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
clareamento
Então já sei. Ainda fico muito brava com algo que tenta mandar em mim. E eu talvez fique assim, muito brava, por, lá no fundo, achar que isto pode mesmo mandar. Se eu não achasse, não daria importância - só ignoraria.
Certo. Próxima barreira a ultrapassar...
Certo. Próxima barreira a ultrapassar...
"- Na verdade, a gente está sozinho, sempre, sempre, sozinho. Não tá, não? Olha, eu ás vezes penso que encontrei a saída pra essa coisa de vida, mas já uns tempos depois, despenso. Eu odeio essa coisa de não saber de nada, mas no final mesmo, a maior alegria do mundo deve ser conseguir aceitar isso, aposto. Pois agora, se for pra usar sinceridade, digo-lhe bem o que se passa em minha cabeça: fico triste com a tristeza. E também com esse papo de agressão - por que é que a gente faz isso?
- Que diaxo, quanto mosquito!
- É, um monte mesmo, zumbindo no meu ouvido. No meu! Vê se pode: que egoísta! Isso que eu queria: aniquilar meu ego, pra ser mais livre que tudo. Isso mesmo: que tudo! Olha aí, nem sei me controlar... mas eu queria muito isso. Sabe de uma coisa? Eu tomei um tapa monumental na cara. E foi agora pouco, e há muito tempo também. Na verdade sempre tomo esses tapas monumentais, e me trazem de volta ao centro do tornado. É assim: por bobagem pouca, acontece. Uma tentativazinha de controle emocional serve pra me enfurecer compulsivamente, e até lágrima sai. E ontem, e hoje, e anteontem, e assim vai. Que coisa, quando percebo, parece que tem um bicho mordendo meu estômago, provocando mais que qualquer coisa, e daí eu viro um bicho igual ao que tá me mordendo, e pulo pra rancar pedaço. Mas é tão estúpido! Porque depois começo a sentir duas dores: a do estômago e a da mordida, mas dói, dói bastante mesmo. Puxo tudo, engulo, faço uma massa marrom feia, e deixo alojada em algum lugar misterioso que não sei. Essa massa marrom, no caso, está nesse momento com um espaço grande dentro de mim, porque o bicho se aquietou, foi descansar, e deixou o esterco, que é essa massa. E sabe do pior? A massa, que é feita de angústia, raiva, medo, ignorância, tem até um nome - o mais horripilante de todos - : culpa. Chato, né? O porquê do "chato"? Porque eu já tô vendo com calma o estrago causado. Num é assim? Quando passa a chuva e não tem mais a neblina e o vento e a confusão embassando a visão, e daí o campo fica limpo, é que dá pra ver o rebento todo. Uma bagunça feia que só. Puxa vida... e agora tô pensando que sou toda a massa marrom feia, sem sobrar nada mais que isso em mim. Mas tô vendo sabe o que? Que o pessoal lá fora é bonito sim - e muito - e que massas marrons feias não podem nunca tocar coisas belas e límpidas por natureza, por mais que tenham por essa a missão de suas vidas. Tô então também com raiva disso, mesmo que no normal das coisas seja sentir tristeza quando se é desprezado... mas, já nem sei se ligo, não. Uma coisa é certa: sou á parte. Á parte dos sorrisos bonitos, da alegria dos correspondidos, das aventura verdadeira do mundo. Resolvi virar um cão desgarrado pra não sofrer mais com isso - considerar-se nu é bom, sim, sabe? Porque se não tem roupa alguma, por que se preocupará em perder uma? Ou melhor ainda, em estar despido na frente de um monte de olhos encapados? Certo? Em teoria, muito belo mesmo. Mas o que acontece comigo é que eu conto em segredo agora: ás vezes, sem eu nem perceber muito bem, fico comovida. Com o braço do menino que está levando por bondade a menina para casa, ou aquele lavando um pano! E a garota que gosta da frase "Uma casa sem gato é igual a um aquário sem peixe", e que diz lindamente assim: "isso ficou gravado muuito lá dentro, no meu tímpano! É, é..né? Porque daí a gente fica ouvindo o tempo todo e nunca esquece..." "
- Que diaxo, quanto mosquito!
- É, um monte mesmo, zumbindo no meu ouvido. No meu! Vê se pode: que egoísta! Isso que eu queria: aniquilar meu ego, pra ser mais livre que tudo. Isso mesmo: que tudo! Olha aí, nem sei me controlar... mas eu queria muito isso. Sabe de uma coisa? Eu tomei um tapa monumental na cara. E foi agora pouco, e há muito tempo também. Na verdade sempre tomo esses tapas monumentais, e me trazem de volta ao centro do tornado. É assim: por bobagem pouca, acontece. Uma tentativazinha de controle emocional serve pra me enfurecer compulsivamente, e até lágrima sai. E ontem, e hoje, e anteontem, e assim vai. Que coisa, quando percebo, parece que tem um bicho mordendo meu estômago, provocando mais que qualquer coisa, e daí eu viro um bicho igual ao que tá me mordendo, e pulo pra rancar pedaço. Mas é tão estúpido! Porque depois começo a sentir duas dores: a do estômago e a da mordida, mas dói, dói bastante mesmo. Puxo tudo, engulo, faço uma massa marrom feia, e deixo alojada em algum lugar misterioso que não sei. Essa massa marrom, no caso, está nesse momento com um espaço grande dentro de mim, porque o bicho se aquietou, foi descansar, e deixou o esterco, que é essa massa. E sabe do pior? A massa, que é feita de angústia, raiva, medo, ignorância, tem até um nome - o mais horripilante de todos - : culpa. Chato, né? O porquê do "chato"? Porque eu já tô vendo com calma o estrago causado. Num é assim? Quando passa a chuva e não tem mais a neblina e o vento e a confusão embassando a visão, e daí o campo fica limpo, é que dá pra ver o rebento todo. Uma bagunça feia que só. Puxa vida... e agora tô pensando que sou toda a massa marrom feia, sem sobrar nada mais que isso em mim. Mas tô vendo sabe o que? Que o pessoal lá fora é bonito sim - e muito - e que massas marrons feias não podem nunca tocar coisas belas e límpidas por natureza, por mais que tenham por essa a missão de suas vidas. Tô então também com raiva disso, mesmo que no normal das coisas seja sentir tristeza quando se é desprezado... mas, já nem sei se ligo, não. Uma coisa é certa: sou á parte. Á parte dos sorrisos bonitos, da alegria dos correspondidos, das aventura verdadeira do mundo. Resolvi virar um cão desgarrado pra não sofrer mais com isso - considerar-se nu é bom, sim, sabe? Porque se não tem roupa alguma, por que se preocupará em perder uma? Ou melhor ainda, em estar despido na frente de um monte de olhos encapados? Certo? Em teoria, muito belo mesmo. Mas o que acontece comigo é que eu conto em segredo agora: ás vezes, sem eu nem perceber muito bem, fico comovida. Com o braço do menino que está levando por bondade a menina para casa, ou aquele lavando um pano! E a garota que gosta da frase "Uma casa sem gato é igual a um aquário sem peixe", e que diz lindamente assim: "isso ficou gravado muuito lá dentro, no meu tímpano! É, é..né? Porque daí a gente fica ouvindo o tempo todo e nunca esquece..." "
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
dentro da bolha não existe erro
"-Já era hora. Esperava-te com ansiedade, não por qualquer sentimento diferente disso, era só essa coisa na forma genuína. É que prometestes me contar a história da Florbela selvagem, ou como era mesmo o nome...?
-Querida, não importa mesmo o nome. E te conto, ainda que seja já pouco tarde para lembrar-me de tudo como deve ser contado...
Morava numa árvore, que era pequena, mas pegava muito sol. Gostava das sereias, e especialmente da parte em que Peter Pan mostrava a Terra do Nunca a eles; e também do macarrão circular, com um molho de tomate em cima, comido na mesa pequena da cozinha. Gostava também do lençol de florzinhas roxas, e da única folha ali em cada uma delas. Sabe quando foi a primeira vez em que pensou na morte? Ainda bem nova, enquanto deitada sozinha na sala; bateu-lhe um pânico grande naquela hora, como se tomasse a consciência de fim, mas junto com isso, veio-lhe também o pensamento sábio de que estava verdadeiramente longe de acontecer, e que ainda tinha muito tempo para fazer o que quisesse. Não gostava do feijão da escola, nem, muito possivelmente, de ir á escola. A única coisa que talvez atiçasse sua curiosidade era a parte boa das gêmeas: não Lígia, mas Lívia. Como podia? Uma percebera o seu medo, e pusera-se a cutucá-la sem muita dó, talvez por pura diverção ou coisa assim; fazia bem como um bicho faz quando percebe que outro não sabe se defender - que coisa estranha ás vezes é a natureza, um mais forte sem querer se torna mais fraco justamente tentando ser mais forte; vira derrotador dos fracos, enquanto que estes aí, aprendem ainda além da força, uma coisa mais valiosa: a olhar a vida debaixo e ver, por baixo também, como que usando uma lupa, tudo que é detalhe bonito e pouco enxergável a olho nu. E Lívia era distante, a parte desgarrada que não estava nunca perto, a possibilidade de algo que veio do joio poder ser bela e que, se não falhava-lhe a lembrança, vez ou outra oferecia qualquer coisa que pudesse significar amizade. No mais, de todos aqueles dias sentindo-se afastada de si mesma, aprendia a ver o Mundo com a boca fechada. Mas não era ruim. Transformava-se naquilo que pode-se ser muito valioso em alguém: numa alheia. Tinha sua bolha que protegia bastante, sabe como? Criava uma companhia pra si mesma - e não é esperto isso? Ter um lugar onde o que importa mesmo e nada mais é a própria noção da vida. Porque vai que quase ninguém percebeu ainda que o jeito felicíssimo de se viver é inventando uma felicidade do além? É, querida, a gente corre o risco de ser a vida inteira sóbrio e nunca conseguir entrar nas águas da beleza, porque se tem uma coisa certa, é isso aqui que lhe digo: se você não inventa umas coisas e outras, como essas pimentas aí que caçaram no mato, a realidade fica insossa. Não é triste, não. A coisa é que, já que somos mesmo inventados, então a felicidade tá aí nesse lugar: na invenção. (...)
-Querida, não importa mesmo o nome. E te conto, ainda que seja já pouco tarde para lembrar-me de tudo como deve ser contado...
Morava numa árvore, que era pequena, mas pegava muito sol. Gostava das sereias, e especialmente da parte em que Peter Pan mostrava a Terra do Nunca a eles; e também do macarrão circular, com um molho de tomate em cima, comido na mesa pequena da cozinha. Gostava também do lençol de florzinhas roxas, e da única folha ali em cada uma delas. Sabe quando foi a primeira vez em que pensou na morte? Ainda bem nova, enquanto deitada sozinha na sala; bateu-lhe um pânico grande naquela hora, como se tomasse a consciência de fim, mas junto com isso, veio-lhe também o pensamento sábio de que estava verdadeiramente longe de acontecer, e que ainda tinha muito tempo para fazer o que quisesse. Não gostava do feijão da escola, nem, muito possivelmente, de ir á escola. A única coisa que talvez atiçasse sua curiosidade era a parte boa das gêmeas: não Lígia, mas Lívia. Como podia? Uma percebera o seu medo, e pusera-se a cutucá-la sem muita dó, talvez por pura diverção ou coisa assim; fazia bem como um bicho faz quando percebe que outro não sabe se defender - que coisa estranha ás vezes é a natureza, um mais forte sem querer se torna mais fraco justamente tentando ser mais forte; vira derrotador dos fracos, enquanto que estes aí, aprendem ainda além da força, uma coisa mais valiosa: a olhar a vida debaixo e ver, por baixo também, como que usando uma lupa, tudo que é detalhe bonito e pouco enxergável a olho nu. E Lívia era distante, a parte desgarrada que não estava nunca perto, a possibilidade de algo que veio do joio poder ser bela e que, se não falhava-lhe a lembrança, vez ou outra oferecia qualquer coisa que pudesse significar amizade. No mais, de todos aqueles dias sentindo-se afastada de si mesma, aprendia a ver o Mundo com a boca fechada. Mas não era ruim. Transformava-se naquilo que pode-se ser muito valioso em alguém: numa alheia. Tinha sua bolha que protegia bastante, sabe como? Criava uma companhia pra si mesma - e não é esperto isso? Ter um lugar onde o que importa mesmo e nada mais é a própria noção da vida. Porque vai que quase ninguém percebeu ainda que o jeito felicíssimo de se viver é inventando uma felicidade do além? É, querida, a gente corre o risco de ser a vida inteira sóbrio e nunca conseguir entrar nas águas da beleza, porque se tem uma coisa certa, é isso aqui que lhe digo: se você não inventa umas coisas e outras, como essas pimentas aí que caçaram no mato, a realidade fica insossa. Não é triste, não. A coisa é que, já que somos mesmo inventados, então a felicidade tá aí nesse lugar: na invenção. (...)
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
um boa noite sem dormir
E então, eles voavam para fora mesmo? É, é verdade, eu os vi cochichando que sairiam cedo, quase de madrugada ainda, por gostarem do fresquinho do vento no rosto - você num ouviu não? E parece que vamos também, cada um prum lado do bosque. De repente a gente se bate né? Conforme for, até toma um café na esquina, uma moeda trocada prum jogo de carteado, ou vai juntando a aceitação de mansinho, até virar criança feliz de novo. Que acha? Me deu uma embolia esses dias, um revertério nas veias, uma coisa meio estranha de se ver; sem querer fui alardeando meus ouvidos, de que estava ouvindo certo mesmo, de que o pássaro bica de um jeito quando quer algo, e de outro quando quer outro algo, e que olha de jeitos mais anômalos ainda pra pedir socorro ou calor - e muda bastante, se for reparar. E num é que antes ainda tinha uns pingos de crença batida, já surrada, nas costas, pra ajudar? Tá, posso dizer mesmo não que não mais tenho, porque estaria é mentindo, mas é tão quase nada que nem dá graça de falar. Num papo desses em que escutava já o periguinho amigo vindo, eu vi mesmo foi - foi uma ternura á mais que nunca vejo, nuns olhos outros que não para cá, e daí tive só que deixar em paz as coisa como estão e nem mais enervar ou coisa assim. Ah, dizer preciso sim, que hoje mesmo meio que corta ver as mãozinhas lá juntas, mas é só olhar pro outro lado e rezar pra que passe logo, que passe logo... e ninguém entende mais nada. Sabe de uma coisa? Canção que é bom mesmo. Pega uns dedinhos, põe um balançar e daí já se tem alegria na hora, prontinha pra ser comida, e nem dói em ninguém - porque é coisa inventada que não é nunca nem tirada de braço de outra pessoa, então já é mais bela. Mas vem o cansaço, dono. Sabe, tem o tico-teco-reco que bate o dia inteiro e analisa e calcula e pestaneja e todas essas coisas assim, que fica tentando achar resposta num braço esticado pra cá, outro pra lá, e vai-e-vens - mas tudo bem traduzido em número e palavras - e se for pra dizer a verdade agora, perdi o fôlego. Não é que seja o caso de deixar as coisa vir em forma de intuição? Deve ser, creio que sim. Então olhe só um segundo: estou indo ali áquela pedra alta, donde se vê mais o mar e as colunas verdes de árvores novas, pra me sentar e conversar mais com o vento e com os meus pés que pisarão nos pedregulhos marinhos e vão me causar muita diversão. Bicho, moço, selvagem, deve ser, sim. Que até pensa umas coisa a mais. Deve ser. E daí, se os pássaros virem bater as asas nos meus ombors, se começarem cantar cantiga bonita e começarem a me fazer mudar o pensamento, tudo bem. E se depois ainda, forem embora sem nem dar um vento de brinde no rosto nem nada, eu vou me esforçar para sentir um tudo-bem dentro de mim também. Prometo. E se forem pra outra pedra, e se forem nadar, e se forem cegos e se quiserem mesmo só brincar ou coisa assim, terei de tentar que fique um tudo-bem por perto e eu tentarei, promto. Tá? Prometo mesmo que vai ralar um pouco menos a friezinha intrínseca dos pássaros que habitam a Terra inteira. Prometo sim.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Dê um jeito
Dê um jeito de defeito no caráter sóbrio, tão delicado e bonito, por favor. É que um punhado de flores me adestra, a picados e socos e fôlegos batidos, e hoje mesmo, agora, desde ontem e anteontem e desde que eu me toquei, veio batendo um cansaço e tornei-me dócil por fraqueza, por ter sucumbido á essa grandiosidade tua. E mesmo sem eu querer, existem limites, de repente; como no caso do limite da lâmina cortando a carne, e duma mão tocando uma pele, e dum ato escancarado, que por vontade, descuido, ou cegueira, fere. Foi naquele dia mesmo, que eu, por relutância ou enganação, quis pensar que tinha visto errado, e que podia confiar em mim mesma - mas não, estava tudo certo: eram olhos ardendo, com vontade de abocanhar outro algo bem na minha frente; os mesmos olhos outrora tão sutis que vejo. E daquele encontro que um dia tive, e que dele tirei coisas pra se lembrar sempre, veio-me a lembrança do ouvido: não duvide tanto de sua percepção. E pronto, por pior que seja, é bom aceitar, e ás vezes também é pro lado bom, como tudo. E eu sou bicho-grilo, sou de me retirar, sou mais assim do que batalhadora, não gosto de ficar tanto mais na cara da guerra, sentindo os tiros baterem nos braços, nas pernas, no corpo inteiro e lá ficar, firme e forte. Depois de tempo grande assim sendo, virei peregrina, e se onde estou me machuco, crio coragem e vou embora, e tudo que deixo - se deixo - é uma pequena parte em alguém, e nada mais. Pequena parte a ser lembrada de vez em quando, em horas que só aquele jeito se encaixaria, e então mencionam o nome e voltam a viver. Mas não importa muito, não deve importar. É talvez duro virar duro, e seco o modo como a vida faz dela mesma uma caminhada cautelosa: um pé grande pisando num espaço bem pequeno de uma linha e embaixo e dos lados e em cima, só vazio...e lá bem no fundo, um chão, uma água, um nada onde se cai. E somos então equilibristas, e só isso, desse jeito. E ninguém dá as mãos. Senti isso, como não? Porque é tão mais espaço ausente que outra coisa, e a gente também é muito ausente em tudo, e não consegue alcançar nunca o outro - é longe demais. Mas obriga-se que seja assim, fazer de que forma então? Eu sei do muro, e da dificuldade de visão de todo mundo, e da falta. Foi que descobri mesmo o problema nosso: a falta. Lá no alto perto da Lua, mesmo com céu nublado laranja e sussurro já alto do vento quase frio, pensei que somos mais pueris que as crianças: a gente se esquece e deixa pra depois; em vez de abraçar e preencher os espaços, fazemos de bom grado (ou de bom medo) uma teia de argumentos sérios a convencer-nos de que não seria adequado, agradável, oportuno, certo, ou bonito. E a gente vai se deitar. E vive menos sempre menos do que podia viver. É porque falta, falta sempre. É mais que isso: falta muito. Pois bem, agradeço os lenços. Gosto de sentir as lágrimas fazendo cócegas no rosto, e gostei de ouvir o menino dizendo "estou olhando pro seu rosto agora" - pareciam palavras belas. E isso vem ao caso sempre: as pequenices. Posso me lembrar das pequenices que são potinhos cheios de vastidão que chega sem ter avisado, e mesmo sendo pequena, é gigante. Pequena vastidão. Foi tanto assim durante as poucas aulas, em que vi crescer uma docilidade num ser arisco, e deixar eu entrar só por deixar, sabe-se lá o porquê disso. E também por eu não ter esperado ou pedido nada, e era como o que se sente ao ser anestesiada e sentir os sentidos se apagando mas também tanta tranquilidade jorrando e ainda a possível música tão nítida e pescável nos ouvidos. Talvez por ter enxergado a grande beleza maior só depois, quando já podia vivê-la, quando já tinha permissão para tocá-la. Talvez coisas singelas assim sejam melhores; melhores do que esta ansiedade e este golpe e esta mão na goela, que sufoca, arranca pedaço, tira ânimo. Porque já enxergo uma grande beleza maior muito forte e fresca, e tenho de ficar perto todo dia por curiosidade e por um quase-toque dito - que é mais cruel do que um não-toque. Então fica como no mito de Prometeu: Zeus o condena a ficar acorrentado, com uma águia a lhe roer o fígado todo dia, e todo dia, sempre de novo, pois o fígado se rejenera depois de comido. E não é assim? Construo uma ternura e tu comes e deixa um buraco no lugar, onde nunca fica, e no outro dia, depois de construir de novo a minha ternura, tu vai lá e arranca-a de novo, para torturar-me - sem nem ao menos saber, pois que talvez tenha sido ordem de Zeus, e só porque contei a ele que os filhos lhe trairiam. Justo, nada justo. E ainda, ao invés de fúria, tenho melancolia e um sono e uma preguiça bruta de te ver e de deixar de te ver. Não há modo de se entender. Só preciso, acho, vomitar choro, no colo de alguém. Ou quem sabe de um olho que pergunte: estás bem? E quem sabe, depois passe. Quem sabe só, porque essas coisas nunca passam de mim - chegam, entram, cavucam, ficam. E não necessariamente se retiram, só se calam. Dá só um pouquinho disso aí teu, e acho que talvez já esteja bom pra eu ir embora. Pra ir embora, sim, porque ficar não tem como. Estou berrando, e o sonho foi maldito. Sabe como? Tinha outra pessoa também, que merecia o calor, e eu não, não pude ganhar, não. E ainda quando saí olharam assustados, mas não abriram a boca pra impedir. E depois tinha também a obrigação de ouvir e estar com quem não queria, e enfrentar o não-acessível como se fosse se tornar acessível. E é por isso que eu te peço: dê um jeito de defeito no caráter sóbrio, tão delicado e bonito, por favor. E perdão: eu sei que é profundo egoísmo.
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
cuspe rápido
Não tem resposta. Mentira, mentira, mentira. São carros lá na rua, e pessoas fumando, e eles olhando sempre pro mesmo lado, cruéis e pequenos e fúteis e machucadores como sempre. Obrigada, venho dizendo agora e mais depois: pois perpetuo a idiota esperança, que, de vez em quando, é fiel tanto quanto eu. Pois que estejam atolados correndo em direção ao que lhes é mais barato, e eu agora arrumo as troxas e sinto vontade de pegar a estrada sem piedade - e sumir até que percebam tarde demais e não tenham mas como correr atrás. E então que no dia eu possa lhes dizer: pecadores. Já que pegam o meu peito já vermelho-vinho, amaçetam com toda minucioside de um cirurgião e vêm dizer com voz doce um "olá". Já que fingem tanto quanto atores bons um simples afeto sincero e logo mais, além, dois minutos depois, são capazes de fazerem o que a humanidade teve o mesmo prazer de fazer a vida inteira: repetir. Sem dó nem piedade. Sem olhos nem nada mais. Incapazes, idiotas, cegos, novos, burros. E covardes. E fracos. E IGUAIS. Grite então com em tom alto: danem-se! Que caminhem assim do mesmo jeito como quiserem, que percam algo, muito talvez, valioso, sem querer, por falta de vida.
|mais mais|
Mandei uma mensagem ao tempo, pedindo-lhe demissão. E as regras dadas foram depostas, então. E eu pedi minha exclusão da secretaria que corre e anova, raiva,ta, e se acovarda diante de vida verdadeira de terra-ará dada a todos nós. E eu pedi um não-reloógio que não marcasse horas nem meses nem folias nem amores nem encruzilhadinuas - eu pedi só caderno de folha mesmo que servisse pra anotar tortamente os vividos.
(sono, sono, sono... e raiva, raiva. Querendo ou não, hora agora ou mais além, grito será vomitado feito jato.)
|mais mais|
Mandei uma mensagem ao tempo, pedindo-lhe demissão. E as regras dadas foram depostas, então. E eu pedi minha exclusão da secretaria que corre e anova, raiva,ta, e se acovarda diante de vida verdadeira de terra-ará dada a todos nós. E eu pedi um não-reloógio que não marcasse horas nem meses nem folias nem amores nem encruzilhadinuas - eu pedi só caderno de folha mesmo que servisse pra anotar tortamente os vividos.
(sono, sono, sono... e raiva, raiva. Querendo ou não, hora agora ou mais além, grito será vomitado feito jato.)
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Pequenina, então pode voltar.
Volte pequenina, volte. Lá no fora, lá já no bem longe fora, tão longe quando a cá estás, enxergo agora de novo a revolta, e o cabo entortando e prendendo minhas asas, porque nesse momento o fora é mais perto, e não tá bom. E olhe com o que me deixa quando sais: deixa-me com a inquietude e a procura brusca por um algo transparente, que nem deve extistir - deve ser mais um truque da trupe na tentativa de estirpar minha calma. E me deixa também com a bambeolidade típica do jeito que aprendi a ser a vida inteira, com o seja-redonda-caso-queira-afeto e no caso, isso tá causando tempestade aqui pra mim; o sangue tá indo pra cabeça de novo, deixando tudo quente, e a impaciência e a raiva e o grito e o medo e a escravidão estão brotando feito praga. Ora veja bem, acabei de telefonar ali pro lado, e já antes e já agora novamente, tive o receio de dizer coisas, mas disse, e ao invés de deixar o possivel erro ir pastar, não: deixei-o se alojar aqui no peito e enfernizar minha sala serena. Tô quase com medo de olhar nos olhos, com medo de abrir a boca, com medo de receber vácuo como vem sendo sempre - e esse medo eu já tinha espancado e largado em canto sujo qualquer, pra ver se não volta mais - mas eu tô permitindo ele se levantar e eu não sei por quê. Será que foi pela manhã? Será que a nojeira veio se achegar em mim por eu ter visto e entrado onde não queria? É, então eu te conto tudo como foi: eu entrei num lugar cheio de cabeças em baixo de nuvens escuras que tão se massacrando a troco de receber algo em troca, e tão lá escrevendo, lutando, morrendo pra botar tudo - tudo que nunca lhes interessou - numa mala de plástico, que rasga bem fácil, e levar prum terreiro cheio de esterco, que cheira porcaria, se ajoelhar e pedir para os reis da cocada preta, encostando a cara no chão, por passagem. E sabe, eu passei um tempo bom fazendo jus á vida que me deram: aproveitando. Mas eis que chega o papa e me diz que isso é coisa errada, pois que o que nos deram foi labuta que é mais missão e trabalho que palco, e eu só não consigo acreditar nisso. Que coisa estranha essa nossa, não é? Você, que não habita muitos, pequenina, muito bem deve saber: tá tudo ao contrário e ninguém reparou. É um procurando a resposta no alto, outro inventando números, o de lá aumentando os muros, esse de cá rabiscando gostos...quando a verdade deve ser meio em outro jeito - os riscos tão mais simplezinhos, igual aos esquilos pulando de galho em galho e as sementes virando frutos da semente que eram. Então, volte, pequenina, volte pra cá para casa. Acabei de passar na rua e ouvi uns músicos tocando, e umas pessoas ouvindo, e uma criança loirinha só vivendo, e me veio á cabeça que, de repente, tem espaço limpo pra você de novo. Pra se achegar e tirar fora o piste grudento que tá me ameaçando, atazanando a minha vontade. Não era isso que tinha me ensinado? Que apesar de tudo, apesar da falação dos palanques e dos pais repetindo que é preciso obrigações e coisa e tal, e dos professores, e dos jovens, e das conformidades, e das calamidades, e das frustrações e pacotes e mais pacotes e mais fumaça cinza, apesar de tudo isso, deve-se ouvir a voz bonita e o sol amarelo, e abafá-los no ouvido e fingir que escuta o resto, só pra não chatear mais ninguém. E daí ficar nesse gramado verde mesmo, plantando os sonhos, se alimentando da própria vontade, buscando bondade, importâncias importantes, o zumbidinho brando sussurrando sempre que a vida acerta a vida e nada mais. É, pequenina, pra mim tá cada vez mais claro: o meu negócio são as pessoas. E você, que se chama paz.
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Disso(e) que tem pra vi(m)ver
Melhor me acusar de viajante que de fugitiva, pois que ladro em todo bairro e vô embora pra poder não sufocar e não afoitar ninguém nessa vida, mas ter um golinho de exuberância vivida também, sem faltar. É que todo romance tende a ter dor ou machucação, mais é mais certo que tédio seria - bem que tédio e romance nem a mesma coisa podem ser - e então essa romaria que vem me acontecendo já arde bastante pra poder ser esquecida, e daí causa judiamento, mas vá lá, ainda serve de alimento. Ô seu moço, só lhe digo que me apetece por demais, e a raiva cresce mais nunca, porque é questão que não existe - essa de ódio habitar mesmo lugar que afeição - então o que fica mesmo lá por dentro não é a dureza que ás vezes tento mostrar na bandeja em exposição: fica de certeza uma baita de uma carícia oceânica que nem fim há de haver, que tá necessitando de se concretizar. Entende a gravidade da coisa? É que é mesmo vontade de comer, vai saber, ora pois? Explico assim uma resposta mais sábia pro rumo melhor: ficar junto no mesmo lugar, tá bom não? É dom mesmo que tu tens de confundir os bichinhos da minha cabeça, e daí acontece que vô então emburrecendo todo dia mais um pouco, quando ao invés de pensar em frasco, penhasco, planta, rabanada, couraça, marca, pistola, granola, gripe, estirpe, me ponho a pensar no'cê, e dum jeito pra lá de cheio; em verdade o cê cai meio bruto no pensar de uma guria fraquinha demais pra aguentar beleza grande dos robustos desse mundo. Mas o dizer que ia dizendo é esse: no sincero, o moço vem dando ás vezes desgosto, c'esse tampão na boca que puseste, e outras horas dá um tiro bruto de felicidade nessa minha pessoa ao falar coisa pequena que seja, e isso é que digo estar abrindo e torcendo todos pensamentos. Acontece que tem outra ocasião: tem quarto aqui pro'ce todo momento, por mais que passe tempo e ache depois que eu já tô em outro caminho longe, viste? Ora, tem sim, acho que pra sempre. E é como eu ia dizendo mais no começo da recitação: ficar junto, pode ser? Vamo esquecer das coisa difícil, das horas trabalhadas, da maturidade mentida e toda chateação de gente que não tem gosto por alegria e vamo então caminhar cada um com seus passos tortos mesmo, até chegar num bairro brando e aquietar poltrona, e daí viver disso que tem pra viver: um do outro.
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Mão que pegou de leve no braço
Olha o achego de chego, virando a perna de lado agora ou depois, e também no reparo do olho que tá olhando com olho a mais do que o que só olha por olhar: admirando, é sim. Como poderia não ser? Ou é erro grande demais de quem tá vivendo demais e misturando por isso as coisas, ou então é acerto no ponto, bem na linha de quem é apanhador de jeitinhos, por menores que sejam. Bem na hora que Sofia perguntou se podia, o menino já abatido pela calmaria com quase espantaento, disse baixo: pode sim. Daí Sofia aceitou um pedaço da comida, começou a dividir, mas ignorou a parte da piscadela: era mais de seu feitio ser sincera. Então comeu um pouco, mastigou e apreciou a arte de respirar - e de canto, reparando o do outro lado, que vaga sem ver o que talvez esteja visível. A luz estava acesa ainda, e seria melhor se não estivesse, porque dá uma inquietação no peito maior. Mas tudo bem. Então eram três corpos deitados no chão, e a menina não estava muito a prestar atenção no que se passava no filme: como? Se vinha agora á cabeça a velha história das ausências, e distâncias, e covardias, e abandonos, e faltas, e não-laços, e infelicidades? Pois que quase chorou se mordendo de culpa por tecer com a mesma agulha que tanto a machucava, o pano de fundo de outras pessoas amadas: aquela do silêncio e do desaparecimento. Que não deveria ser assim, não deveria, e portanto deveria muito mudar. Mas também não era de fazer sentido atiçar tanto assim a tristeza de alguém, pensava Sofia, "né, mãezinha?". Que estranho era o fênomeno ali observado: uma palavra tocava no fundo da alma da rapazinha, e ás vezes era pra explodi-la de alegria, outras pra enforcá-la de tristeza, e refletia muito tempo então "como será isso tão devastadoramente possóvel? Será mágica de feiticero ou coisa assim?". Então foi passando bem de pouco, quando ocorreu-lhe que não é mesmo muito de direito impor coisas, por mais que se ache permitido. Mas que a culpinha ficou lá com a pobre, ficou sim. E também a velha história das ausências, e covardias e todo o tralálá de quem quer algo, espera algo, anseia por algo, e não tem a coragem de fazer. E ficou mas umas coisas caíram por cima e dá pra aceitar por enquanto - por mais umas horas, pra descanso. E um sorriso vindo de descoberta ajudara também: pois que reparou ela, que as pessoas fazem dança pra acasular. Ora! Pois que perna mexe pra direita e outra perna também, e mexe pra esquera, e outra também, e vão indo junto, se deixar. É que depende: cabe a um começar e ao outro aceitar. Mas parece que Sofia não estava aceitando - era melhor buscar mesmo o querido. É que explodiu nela uma glória de uma poção vindo sussurrar em seu ouvido; é que era gosto brilhante, meio doce, de carinho e de tempo que dava-lhe de presente alegria ao lembrar.
Sobrara-lhe ainda mais uma vitoriazinha ao voltar pra casa - além de ir quando o querido ia, com a sensação de criança guiada e portanto importando-se apenas com nada. Dando "boa noite" pôde encostar, tão somente encostar, o que muito já lhe valhia. Por ela, se pudesse, nunca seguraria a vontade de viver mais de perto, sem se controlar, mas talvez não podia - será mesmo que não? - e essa dúvida e medo matava e ressucitava um pouquinho mais todo dia. Houve ainda um agrado a mais: os olhos sorrindo de dentro mesmo, e trazendo felicidade pra deixar alojada na que recebia.
Sobrara-lhe ainda mais uma vitoriazinha ao voltar pra casa - além de ir quando o querido ia, com a sensação de criança guiada e portanto importando-se apenas com nada. Dando "boa noite" pôde encostar, tão somente encostar, o que muito já lhe valhia. Por ela, se pudesse, nunca seguraria a vontade de viver mais de perto, sem se controlar, mas talvez não podia - será mesmo que não? - e essa dúvida e medo matava e ressucitava um pouquinho mais todo dia. Houve ainda um agrado a mais: os olhos sorrindo de dentro mesmo, e trazendo felicidade pra deixar alojada na que recebia.
labuta dura de gente desajeitada
Fome é coisa rabujenta e vem pra grudar e resolve sair mais não; engole sapo, mosca, vento, migalha, tudo que venha de graça e á pagamento também, como não deixaria de ser. Os zóio come, a boca mastiga, o barriga estufa, o peito...apodrece? Assim, se não sacia o faminto, o peito apodrece quase que rápido - só é lento porque a doença é magra e leva tempinho pra matar, pra poder dar uma judiada no meio da estrada. Né? Bichos com fome não tem ragalo de jeito maneira: se arrastam no chão mais sujo que tiver só pra conseguir frutinha gostosa. Óh, pobreza é essa que ninguém nunca disse que haveria? dá é muita dó desses fulanos. Por que há de ser nesse formato? Os arredios não escapam facilmente, só ficam fugindo pra não dar na cara, e são um dos - se não os mais, nénão? - esfomiados, e querendo carne verdadeira, e daí a coisa pega. Daí tem os flagrantes que ficam gritando a vida inteira nos ouvidos dos outros pra conseguir pãozinho, e conseguem é muito, na bem da verdade - e são um tanto egoístas se for parar pra reparar, dá até um pouco de raiva desses daí. E também tem os frios que não sabe-se ao certo se sentem a barriga roncar, mas talvez que não, já que quase nunca vão e pedem arrego. Esses são judiadores, pra mostrar o caso bem de perto. É que pegam uma mão e oferecem com a palma pra cima uma montanha de arroz doce, e depois com a outra mão que tava escondida, vêm e tomam da boca do coitado que comia e saem correndo, deixando só os fiasquinhos pra que lembrem do gosto doce - que logo vira azedo, já que a falta ocorre e a falta é bem nesse sabor. Mas o arroz doce deles deve ter algum veneno ou droga ou substância entorpecente, será? Que diaxo há de ser? Já que quase sempre só o fiasquinho de comida que eles permitiram na boca alheia é bastante pra viciar o pobre de uma maneira agoniante. E ele daí vira escravo do arroz, sai sempre pra procurar igual mas ás vezes é difícil de achar - porque os frios reais são raros também, e ficam escondidos na moita ou mais provavelmente caçando mais fracotes que tenham a sorte de provar-lhes a mercadoria. O pior é que devem fazer meio sem querer - só pode ser. É, dá um negócio estranho pensar que moram dentro do próprio umbigo - porque daí pensando assim começa-se a sentir um ódiozinho agudo e vai crescendo - mas então vem a lembrança do arroz, da parte bonita, do bem feito (porque a comida deles não alimenta pra sempre, mas traz uma certa nutrição nova) e depois desse pensamento todo, o que resta mesmo é amar esses malandros fugidos com a única armadura possível: o desapego.
Os gritantes dão tédio. Aqueles lá que pedem pão a torto e á direito. Ah não, essa mania fula deles dá coisa ruim na gente - ao menos no eu. É que é muito arregalado, será esse o caso? Meio na cara, sem espera alguma, sem nenhum pouquinho de dignidade - e nem piedade? É que quase sempre esse pessoal engana bem, e fica pedindo pra roda inteira sem que os arredios notem, e quando se vê, pegaram todas as migalhinhas existentes e também toda a comida grande - e não pensam em dividir! Mas dizer em alto e bom som que dividem, ah, isso fazem de bom grado. E quando um arredio consegue roubar um nadica de nada que seja, daí o gritante começa a piar e a olhar feio e a se aproximar com graça de pavão pra bicar fingindo que tá beijando - vê se pode! Não é assim não? Ou é maldade de quem tem fome demais pra aguentar boicote? Ah, se não é no todo, é prum arredio aflito cheio de vontade de comer mais carne, sangue, olhos, mãos, braços, bocas e beijos. Tem problema então? É que comer palavra, falatório descabido, ladainha de frio não dá mais, dói mais. Ô bando de friozada, ouçam só: gostariam de fechar um pouco mais o bico, mudar de casa - sair do centro e ir pra favela? - e dar um pouco mais a mão? Ou sei lá, quem sabe abrir só uma frestinha dos olhos pra ver umas coisinhas a mais do lado? Ah, gente, por favor! Que custa? É só um pouco, só pra dividir essa vastidão do'ceis que tá fazendo uns bichos e outros aqui desse lado ficarem doidos. Tá bom? Os arredios vão tentar chegar mais perto então, pra ver se ajuda assim. Vamos tentar tirar a dureza que fizeram a gente pegar, e tirar também um pouco da fúria e defesa e medo e pavor que a gente tá construindo, e também um pouco de síndrome de por-favor-me-aceite-com-esse-meu-jeito-doce pra deixar aparecer um pouco mais do amor verdadeiro que a gente guarda; e um pouco mais de voz calma também. Feito o trato? Ah, sendo sinceros, troca já não é mais bem-vinda nesse jeito de vida que a gente quer né? Os ariscos pedem socorro, é. Mas tá decidido: não vai precisar de troca, não. Quem guia agora é mesmo a leveza, e se der pra vocês darem um pouquinho, bem. Se não, a gente vai arranjar uma forma de se virar. E quem fica com o prejuízo não é o faminto, não. Só pra deixar desenhado na parede que lerão depois, porque hora ou outra, mesmo sem querer, quem tem fome vai em busca de comida, e quem ficou dormindo por pirraça, e que não quis ser incomodado, vê que gente arisca não é de se perder.
Os gritantes dão tédio. Aqueles lá que pedem pão a torto e á direito. Ah não, essa mania fula deles dá coisa ruim na gente - ao menos no eu. É que é muito arregalado, será esse o caso? Meio na cara, sem espera alguma, sem nenhum pouquinho de dignidade - e nem piedade? É que quase sempre esse pessoal engana bem, e fica pedindo pra roda inteira sem que os arredios notem, e quando se vê, pegaram todas as migalhinhas existentes e também toda a comida grande - e não pensam em dividir! Mas dizer em alto e bom som que dividem, ah, isso fazem de bom grado. E quando um arredio consegue roubar um nadica de nada que seja, daí o gritante começa a piar e a olhar feio e a se aproximar com graça de pavão pra bicar fingindo que tá beijando - vê se pode! Não é assim não? Ou é maldade de quem tem fome demais pra aguentar boicote? Ah, se não é no todo, é prum arredio aflito cheio de vontade de comer mais carne, sangue, olhos, mãos, braços, bocas e beijos. Tem problema então? É que comer palavra, falatório descabido, ladainha de frio não dá mais, dói mais. Ô bando de friozada, ouçam só: gostariam de fechar um pouco mais o bico, mudar de casa - sair do centro e ir pra favela? - e dar um pouco mais a mão? Ou sei lá, quem sabe abrir só uma frestinha dos olhos pra ver umas coisinhas a mais do lado? Ah, gente, por favor! Que custa? É só um pouco, só pra dividir essa vastidão do'ceis que tá fazendo uns bichos e outros aqui desse lado ficarem doidos. Tá bom? Os arredios vão tentar chegar mais perto então, pra ver se ajuda assim. Vamos tentar tirar a dureza que fizeram a gente pegar, e tirar também um pouco da fúria e defesa e medo e pavor que a gente tá construindo, e também um pouco de síndrome de por-favor-me-aceite-com-esse-meu-jeito-doce pra deixar aparecer um pouco mais do amor verdadeiro que a gente guarda; e um pouco mais de voz calma também. Feito o trato? Ah, sendo sinceros, troca já não é mais bem-vinda nesse jeito de vida que a gente quer né? Os ariscos pedem socorro, é. Mas tá decidido: não vai precisar de troca, não. Quem guia agora é mesmo a leveza, e se der pra vocês darem um pouquinho, bem. Se não, a gente vai arranjar uma forma de se virar. E quem fica com o prejuízo não é o faminto, não. Só pra deixar desenhado na parede que lerão depois, porque hora ou outra, mesmo sem querer, quem tem fome vai em busca de comida, e quem ficou dormindo por pirraça, e que não quis ser incomodado, vê que gente arisca não é de se perder.
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
gritinho agudo da menina na corda
Que coisa que mete medo mais não: os piás incendiados de grandiosidade. Vá lá, pode ser mais ou menos até, mas Sofia quase que saia da barra da saia deles - estava se limpando. Que não vinham mais pôr o dedão na cara, que a moça começava a levantar voz, e daí por bem ou por mal piavam todos juntos.
Era caso de um, no dia de hoje. O moçoilo fazia de bom-grado ou de mal-grado, dependia do humor, da bebida, ou do fumo e isso só podia ser manha de quem sempre foi de fino trato. Mas Bastião, o de cabelinho pequeno, hoje era tudo isso, não: Sofia estava fora da regra. Nunca entrara na competição fosca que vira anos atrás; sabe como? era gato comendo gato e furando olhos e mordendo bocas - e era feio demais pro seu estômago. Ficara de fininho percebendo os trejeitos - e quantos eram! - e agora quase sabia muito, faltava-lhe mais um pouco, na bem da sinceridade. Mas que a estória foi passando e de tudo hoje já era enxergável (com aquele jeito mesmo de quem tem fome com o olho) e a moça tava quase a acreditar na estória. Garfara no brilhinho dos olhos. Mas não tinha anseio de catar o terrero e fazer maldade ou praticar mal-criação ou egoísmo descabido ou posse cruel; queria só sentir um pouquinho de um pouquinho de alguns, mas vira na vida que só vale o que em si mesma tem um bilhete escrito "válido", portanto não faria besteira de enfiar na pansa coisa que não quer só por ter olho maior que a barriga. Daí mas a questão continua sendo o moço afoito... ele tá tonto. Fica pensando que é bonito pôr o pé, depois tirar, e pôr e tirar e dar as costas e escrever e dizer "sou do tamanho de um prédio, mas com humildade", mas belo isso nunca há de ser, nem aqui nem em lugar nenhum. Tem um nome bem é bonito pra isso: Hipocrisia. Que tal? Engana mais Sofia não, seu moço (bonito). Por mais que a pequena te goste, por mais que te goste muito, a pequena não é assim tão baixa pra ficar esperando a espada cair - ainda que o moço não esteja nem se quer pensando no assunto -, esperando a espada da tua distância cretina cair nela. Tá bom assim? Por que dessa vez tem uma coisa a mais: um esconderijo inabalável. O lugar é mais que blindado, ninguém consegue entrar pra misturar, sabia? É dentro dela mesma. Vai pra lá quando pensam em cortá-la com facão que seja. E ficam (risos), ficam os esfaqueadores esperando aflitos do lado de fora - e chorando! - porque não sabem como entrar - não sabem!
Acalma-se.
Tem respiradores ao lado. Os bandidinhos de açúcar que dão a mão, e tem espírito de natureza feita de altruísmo. São risonhos, os dois. Ou três? E não são de gritar na cara dos outros, nem de estrelismos chulos. Estão perto pra ajudar a respirar. Ou pra passar a mão nas costas ou pra levar nas costas ou pra sorrir. E não vão assim embora sem dizer nada; eles ficam. Que quem fica não recebe prêmio, é verdade, e não vira alto, pras televisões. Quem fica, fica perto. Fica em um quarto menor, mas virado pro mar: dentro do c o r a ç ã o.
Era caso de um, no dia de hoje. O moçoilo fazia de bom-grado ou de mal-grado, dependia do humor, da bebida, ou do fumo e isso só podia ser manha de quem sempre foi de fino trato. Mas Bastião, o de cabelinho pequeno, hoje era tudo isso, não: Sofia estava fora da regra. Nunca entrara na competição fosca que vira anos atrás; sabe como? era gato comendo gato e furando olhos e mordendo bocas - e era feio demais pro seu estômago. Ficara de fininho percebendo os trejeitos - e quantos eram! - e agora quase sabia muito, faltava-lhe mais um pouco, na bem da sinceridade. Mas que a estória foi passando e de tudo hoje já era enxergável (com aquele jeito mesmo de quem tem fome com o olho) e a moça tava quase a acreditar na estória. Garfara no brilhinho dos olhos. Mas não tinha anseio de catar o terrero e fazer maldade ou praticar mal-criação ou egoísmo descabido ou posse cruel; queria só sentir um pouquinho de um pouquinho de alguns, mas vira na vida que só vale o que em si mesma tem um bilhete escrito "válido", portanto não faria besteira de enfiar na pansa coisa que não quer só por ter olho maior que a barriga. Daí mas a questão continua sendo o moço afoito... ele tá tonto. Fica pensando que é bonito pôr o pé, depois tirar, e pôr e tirar e dar as costas e escrever e dizer "sou do tamanho de um prédio, mas com humildade", mas belo isso nunca há de ser, nem aqui nem em lugar nenhum. Tem um nome bem é bonito pra isso: Hipocrisia. Que tal? Engana mais Sofia não, seu moço (bonito). Por mais que a pequena te goste, por mais que te goste muito, a pequena não é assim tão baixa pra ficar esperando a espada cair - ainda que o moço não esteja nem se quer pensando no assunto -, esperando a espada da tua distância cretina cair nela. Tá bom assim? Por que dessa vez tem uma coisa a mais: um esconderijo inabalável. O lugar é mais que blindado, ninguém consegue entrar pra misturar, sabia? É dentro dela mesma. Vai pra lá quando pensam em cortá-la com facão que seja. E ficam (risos), ficam os esfaqueadores esperando aflitos do lado de fora - e chorando! - porque não sabem como entrar - não sabem!
Acalma-se.
Tem respiradores ao lado. Os bandidinhos de açúcar que dão a mão, e tem espírito de natureza feita de altruísmo. São risonhos, os dois. Ou três? E não são de gritar na cara dos outros, nem de estrelismos chulos. Estão perto pra ajudar a respirar. Ou pra passar a mão nas costas ou pra levar nas costas ou pra sorrir. E não vão assim embora sem dizer nada; eles ficam. Que quem fica não recebe prêmio, é verdade, e não vira alto, pras televisões. Quem fica, fica perto. Fica em um quarto menor, mas virado pro mar: dentro do c o r a ç ã o.
terça-feira, 20 de outubro de 2009
(entre isso mesmo)
São rapazes mordidos de pouco pavor, mordiscados por ela pelas beiradas e cheios de mar, feitos de mar: de perigo estampado. Fuga não falta, então é o velho jogo humano que ela mesma própria sempre odiara, há tanto visto na cara, há tanto tempo notado: de pegar o que presta, de pegar o que - e tão somente - de bom resta, e deixar o que sobra na ponta, jogado no chão feito coisa que não serve pra mais ninguém, e deixa a pessoa pensando que é bem assim mesmo; como será que o fazem? Que mania feia é essa. Pois bem que já os vira, e agora estava bem mais pronta que antes. Não tinha mais esperança, restava-lhe agora apenas o otimismo indomável, e com ele agora se casava e percebia o quão mais forte era.
Hoje, a ela, Sofia, fora um tanto difícil. Roncara muito, sonhara muito, dormira muito, e pouco vivera. Estava pouco sóbria e muito sensata - esquecida das virtudes alheias, centrada no nada cabível a um dia sem ninguém notável, entorpecida pela desistência dos outros que agora já parecia mais fácil de odiar: não era, de forma alguma, parte dela; Sofia não era de desistir.
Fora em parte duro também, aquele bicho rondando sua casa, perguntando-lhe os nomes dos amores, farejando possíveis apelos, querendo expulsar do terreno cercado - onde sempre tivera um espaço, ou que agora conquistava com rebeldia - o seu pé. Estava, sim, acostumada já com o terreno baldio que poucos conseguiam ver, mas de vez em quando doía muito perceber certas sutilezas que de bom grado não são. Pobre palavra torta que disseram-lhe neste dia: "ah é?". Servia pra saber: é, tens medo e nem sabes. Só deram-lhe tristeza assim, dela também já saíra, o bicho, sem querer, e nem ela mesma soube o porquê - só que egoísmos machucam de verdade, por mais que todos já venham com ele desde a nascença.
E o que pode ou pode não ser? Rochas não-rochas são de dar nos nervos. Que percam o fio da meada pra verem; catará ela tudo, e deixará só o remo, o barco, e a água brava, pra que nadem com tanto pavor em direção a ela quanto ela já o fizera - e sempre o faz - em direção aos outros: com amor inacabável. Promessas existem? Mentira essa, ou a de que as pessoas que já haviam-lhe prometido algo é que eram a mentira? Talvez. Tido pelo não tido, uma coisa podia ser verdade em seu pensamento: não queria voltar a ser máscara. Nada que peça vitrine. Nada que peça corrida. Nada que mande-a sair de sua casa contra vontade. Nada. O bem não é assim, não. Nem o mal. Só quem tá na metade e tá cego ainda. Melhor arrumar então melhor desculpa pra enganar um mentiroso também.
Ninguém percebe nunca, mas é o próprio grande grupo que cria seu traidor: quem fica de fora enxerga muito bem o que ocorre dentro, e passa um sem-fim de tempo de olho, reparando nas proezas das pequenezas reveladoras - já que não é convidado a comungar - e depois sabe tudo. E depois não há de haver senhor engenhoso que saiba esconder (não se ele tiver passado todo o tempo dentro junto). Os próximos são outros. Os que vivem á margem. Porque alma pede assim.
Hoje, a ela, Sofia, fora um tanto difícil. Roncara muito, sonhara muito, dormira muito, e pouco vivera. Estava pouco sóbria e muito sensata - esquecida das virtudes alheias, centrada no nada cabível a um dia sem ninguém notável, entorpecida pela desistência dos outros que agora já parecia mais fácil de odiar: não era, de forma alguma, parte dela; Sofia não era de desistir.
Fora em parte duro também, aquele bicho rondando sua casa, perguntando-lhe os nomes dos amores, farejando possíveis apelos, querendo expulsar do terreno cercado - onde sempre tivera um espaço, ou que agora conquistava com rebeldia - o seu pé. Estava, sim, acostumada já com o terreno baldio que poucos conseguiam ver, mas de vez em quando doía muito perceber certas sutilezas que de bom grado não são. Pobre palavra torta que disseram-lhe neste dia: "ah é?". Servia pra saber: é, tens medo e nem sabes. Só deram-lhe tristeza assim, dela também já saíra, o bicho, sem querer, e nem ela mesma soube o porquê - só que egoísmos machucam de verdade, por mais que todos já venham com ele desde a nascença.
E o que pode ou pode não ser? Rochas não-rochas são de dar nos nervos. Que percam o fio da meada pra verem; catará ela tudo, e deixará só o remo, o barco, e a água brava, pra que nadem com tanto pavor em direção a ela quanto ela já o fizera - e sempre o faz - em direção aos outros: com amor inacabável. Promessas existem? Mentira essa, ou a de que as pessoas que já haviam-lhe prometido algo é que eram a mentira? Talvez. Tido pelo não tido, uma coisa podia ser verdade em seu pensamento: não queria voltar a ser máscara. Nada que peça vitrine. Nada que peça corrida. Nada que mande-a sair de sua casa contra vontade. Nada. O bem não é assim, não. Nem o mal. Só quem tá na metade e tá cego ainda. Melhor arrumar então melhor desculpa pra enganar um mentiroso também.
Ninguém percebe nunca, mas é o próprio grande grupo que cria seu traidor: quem fica de fora enxerga muito bem o que ocorre dentro, e passa um sem-fim de tempo de olho, reparando nas proezas das pequenezas reveladoras - já que não é convidado a comungar - e depois sabe tudo. E depois não há de haver senhor engenhoso que saiba esconder (não se ele tiver passado todo o tempo dentro junto). Os próximos são outros. Os que vivem á margem. Porque alma pede assim.
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
de Sofia: não quero beber do teu café pequeno
Me dá aquela bota suja do canto da sala e finge que não demora pra poder dizer depois que se atrasou: será menos dolorido. É que você pensa que eu não vi e não ouvi o que vocês disseram agora pouco, não é? É muita falta de vergonha, se quer saber; dizer que o meu bicho é mais precioso e que eu valho mais que mera e que por isso preciso de um alto do mesmo tamenho que eu - eu quase gritei naquela hora! Se tá com medo então arranje um jeito de se limpar, pra vir depois e poder entrar, ao invés de ficar inventando desculpas esfarrapadas - e sendo esfarrapado - todo tempo. Sabe por que? Porque eu espero. Porque eu já estou esperando você criar coragem, mas você tá demorando muito e tá fazendo eu ficar com raiva todo dia. E a minha raiva cresce rápido, que é de meter medo na gente, pode confiar. Sabe o que eu tava pensando? Que os meninos têm medo de chegar perto porque o que eles querem mesmo, o que eles só querem, é colo. Quer saber? São mais tolos que todo mundo, estão tentando achar chão bem duro pra pisar, mas sabe o que não é bem assim nisso? O chão, moço. O chão não tem, não existe, não, em lugar nenhum. Por isso é que parece mole: porque você tá pisando em água o tempo todo - sabia dessa? É, é sim. O que salva é dar a mão, e é o que você e seus amigos têm medo: de dar a mão. Mas os meninos são azuis. E eu não sei ficar longe de gente azul, nem um tiquinho. As pessoas vermelhas, rosas, amarelas, não são do meu gosto, sabe? Ficam piscando o tempo todo e chamando e falando e correndo e estando e isso me entope a cabeça até as tampas, mas eu tô tentando gostar, juro que tô. Igual quando Olívia tentava não ter nojo do sapo e eu não tinha, é assim que tô fazendo, pra tentar melhorar. O pior é uma coisa, sabe o que? Que ás vezes a gente pensa que tá forte mas bate um vento e a gente cai até o fundo do mar e engole água - e de vez em quando fica com o pé preso em alguma plantinha. O que me faz pensar que existe diferença, é que os humanos têm livre arbítrio e são obrigados a escolher um caminho - ironia, não? - e daí você escolhe ou um caminho mais calmo pra si mesmo e pro resto, ou resolve ficar batendo a cabeça a vida inteira nos muros que são feitos de pedra e que não têm porta nenhuma. Acho que tomei o primeiro, e tô tentando me manter na linha - vê se consgue não me apedrejar muito por isso que resolvi fazer, tá? É, você e os seus amigos estão querendo me matar só porque eu quis ficar a cá, na terra com os quietos e quem é assim, nesse Mundo, parece não merecer aconchego, e é com isso aí que vocês estão me esfaquiando. Só quem ateia fogo é que merece espaço? AH, mas lembrei agora: talvez eu mesma esteja errada, e lendo uma coisa que não é. E também dando a mesma coisa que tô recebendo! Vou tentar me concertar pra ver se funciona.
domingo, 11 de outubro de 2009
(crescendo)
Você diz que todo diabo é sério, e mete medo no meu dentro, e isso me apavora. Sempre pediu pra eu sair pra rua enquanto encarava suas mágoas, e eu ia feito burro em dia de lavra, pensando por que cargas d’água me metia nesse futum teu. É, eu não sou de sair, não, quando pedem. Acho que sou mais de querer ficar, mesmo que seja pra ver a casa incendiar, porque daí ao menos estou mais perto, pra sei lá, de repente, ajudar. Sabe do que falo? O senhor ta sempre morinbundo, cansado da vida, do circo todo, e eu me indago o porquê disso; vai me dizer não? Dá uma vontade insana de descobrir o paradeiro que te habita, olhar de frente nos zói do bicho que fica grudado em ti. Só não sei por que não me deixa... mas que coisa! Já falei-lhe do que sou, parece não ouvir – será que pode isso? Contei que sou leal mais que muito, e que era pra tudo que eu estaria do teu lado, em caso que deixasse. Ora, senhor, não to pedindo nada, não. Fica achando que todo mundo é igual? Que eu vim pra te roubar as calças e sair só com o pão? Mas que me magoa essa história de me deixar de fora, nunca conta nada, ah, isso é feio, sim. É feio porque eu pedi pra me permitir olhar a vida inteira, e olha que nem pedi lugar – só que não me matasse no coração – mas o senhor tem sido muito mal. É, é sim. Um dia desses aí atrás, falou pra eu ir dar uma volta pra deixar mais ar pro senhor respirar, e eu fui, né, boa obediente que sou. Mas ora! Deixaste depois, a porta trancafiada! E ainda to na solera, sentada com as orelha grudada tentando ouvir som que sai daí de dentro – e o senhor não tem falado. O senhor tem me machucado, tens, será, noção disso? Pedi mesmo que falasse sem medo, e nem esse gosto pode me dar – oras, que fiz eu um dia pra agüentar isso? Que pecado acabei cometendo pra merecer agora esse peso de ter dona mesmo sem ele saber? Ah, eu me pergunto já há tanto tempo, nem sem mais onde me perder... vai, senhor, vo esperar mais ainda, como sempre – e até que dá certo. Enquanto to aqui fora, sem que me deixe entrar na nossa casa – vai dizer que não sabe que eu sou também tu? – fico passando o olho nos outro que passa correndo, pulando, dançando, ferindo, alegrando; e me distraio assim, comendo das alegriazinhas que a vida tem me oferecido de bom grado. Puxa vida, como pode isso? Logo o que tão doce era, vira bem amargo, e arranca parece o fígado da gente. Pode ser não, como será? Que beleza tão infinita tenha que ter muita agonia misturada junto no meio. Mas é coisa minha, quem vai dizer? Vai que é sina, ficar próxima, muito próxima, mas de verdade, no íntimo mesmo, de vez em quando só. Mas poder ver, pelo menos, daí isso é bom. Não, não, poder tocar, que é o que eu posso – ás vezes! Mas tocar com os dedo, a pele que sente tudo bem no fundo. Bonito sim, é sincero. Presente, sorte, qualquer nome que tenha: graça, talvez? De estar lado a lado do genuíno, vez ou outra. Encontra, encanta, sorri. Ta bom, eu já sei: tu ainda não vê, né? Mas eu vejo por nós dois, e daqui a pouco eu sei que vais ver junto.
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
Pior do que todos os piores daquela face
Broto de lágrima ás vezes aparecia
Em seu rosto melindrado
E Sofia crescia.
Mas ah, que dor era essa, de ter que se rasgar em si mesma, pra poder virar um algo mais rijo, mais alto, quem sabe - se esse aquém, de repente, permitisse. Vasta sim, até demais. Dura já não, nunca fora, que bom se entendesse.
Não tem água na boca hoje, nem ladainha falada - se bem que de manhã fora bonito ver a deixa. Desigual e raro, é o que podia-se dizer daquilo, daquele mar de banditismo escapado, das mãos libertas dele que ensaiavam - e Sofia via com os próprios olhos que muito acostumados a ver além da conta estavam. (Caretas próximas eram um sinal, estava começando a montar o desenho, em papel que fica grudado.)
E disse: "até mais".
Depois viria a parte agoniante. Ver os rostos inexpressivos doía bastante, mais nela, talvez, do que no resto; a ausência gritava tão alto que a deixava surda. Engraçado isso: como o que deixa espaço vago (como quem sabe, o silêncio), na verdade, pode berrar tão terivelmente no peito de um ser? Ah, sim, a criança traduz tudo: tem medo do escuro.
E mais depois, viria a raiva. Não a raiva feroz, mas aquela que fica sussurrando, pra deixar desconforto. Pois que Sofia assim se encontrava mais á noite: sem se achar. Procurara em algumas poucas coisas, nas letras dos senhores que deviam ter a mesma história, e nas músicas emanadas da vitrola, e no pote de chocolates - e no pão mofado. Mas não estava lá. Que incômodo era não sentir a própria carne, que fraco deixar que um outro ser pudesse tão devastadoramente lhe invadir - e ela sentia então cada vez um pouco mais de raiva, e também, uma aceitação chula que a denunciava como pobre.
Que chatisse era isso: ter de pedir permissão ás pessoas por amá-las com o fundo do que chama-se alma. Era de zangar-se profundamente, até porque todo mundo decidira ser propriedade, fechar as portas, trancar as janelas e cobrar pedágio; todo mundo decidira dizer muito mais "não".
Gostava dos ultrapassadores, será que podia dizer assim? De todos aqueles desenvergonhados, vagabundos, safados. De todos esses que concretizavam as coisas - pois que começava a perceber que cometer atos viciava! Agora não bastava mais só devanear, era preciso, tão preciso, tocar. Ah, os dedos coçavam mas Sofia ainda não alcançara aquele estágio meio Cazuza, bosta. É, meio Cazuza, era ela, então? Ou como naqueles filmes franceses, de jovens nus na mesma banheira. Podia ser, muito provavelmente era... e que orgulho sentia. Quem sabe, era Sofia, pior do que todos os piores daquela face. (E ria-se de doer).
Importante:
"A ilusão da segurança."
Em seu rosto melindrado
E Sofia crescia.
Mas ah, que dor era essa, de ter que se rasgar em si mesma, pra poder virar um algo mais rijo, mais alto, quem sabe - se esse aquém, de repente, permitisse. Vasta sim, até demais. Dura já não, nunca fora, que bom se entendesse.
Não tem água na boca hoje, nem ladainha falada - se bem que de manhã fora bonito ver a deixa. Desigual e raro, é o que podia-se dizer daquilo, daquele mar de banditismo escapado, das mãos libertas dele que ensaiavam - e Sofia via com os próprios olhos que muito acostumados a ver além da conta estavam. (Caretas próximas eram um sinal, estava começando a montar o desenho, em papel que fica grudado.)
E disse: "até mais".
Depois viria a parte agoniante. Ver os rostos inexpressivos doía bastante, mais nela, talvez, do que no resto; a ausência gritava tão alto que a deixava surda. Engraçado isso: como o que deixa espaço vago (como quem sabe, o silêncio), na verdade, pode berrar tão terivelmente no peito de um ser? Ah, sim, a criança traduz tudo: tem medo do escuro.
E mais depois, viria a raiva. Não a raiva feroz, mas aquela que fica sussurrando, pra deixar desconforto. Pois que Sofia assim se encontrava mais á noite: sem se achar. Procurara em algumas poucas coisas, nas letras dos senhores que deviam ter a mesma história, e nas músicas emanadas da vitrola, e no pote de chocolates - e no pão mofado. Mas não estava lá. Que incômodo era não sentir a própria carne, que fraco deixar que um outro ser pudesse tão devastadoramente lhe invadir - e ela sentia então cada vez um pouco mais de raiva, e também, uma aceitação chula que a denunciava como pobre.
Que chatisse era isso: ter de pedir permissão ás pessoas por amá-las com o fundo do que chama-se alma. Era de zangar-se profundamente, até porque todo mundo decidira ser propriedade, fechar as portas, trancar as janelas e cobrar pedágio; todo mundo decidira dizer muito mais "não".
Gostava dos ultrapassadores, será que podia dizer assim? De todos aqueles desenvergonhados, vagabundos, safados. De todos esses que concretizavam as coisas - pois que começava a perceber que cometer atos viciava! Agora não bastava mais só devanear, era preciso, tão preciso, tocar. Ah, os dedos coçavam mas Sofia ainda não alcançara aquele estágio meio Cazuza, bosta. É, meio Cazuza, era ela, então? Ou como naqueles filmes franceses, de jovens nus na mesma banheira. Podia ser, muito provavelmente era... e que orgulho sentia. Quem sabe, era Sofia, pior do que todos os piores daquela face. (E ria-se de doer).
Importante:
"A ilusão da segurança."
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
(Muita coisa importante falta nome)
Queria escrever, Sofia sabia, tanto quanto na pele sentia; mas vinha de repente tudo que via, e se por acaso achava, algo que como verdade sempre tomou, era preciso registrar antes que fosse embora...
Não queria esquecer: gostava do nome Vinícius. E da palavra Varanda. E de sentar no alto para deixar as pernas balançando. E acabava de descobrir: gostava de se debruçar na janela quando ventava pra sentir o vento massagear o coro cabeludo. E amava a doçura do menino magrelo e discreto: ela sabia que ele sabia tudo.
Nos seus diários escreveu para depois (porque não era questão de ser agora, mas quase sempre era):
Não queria esquecer: gostava do nome Vinícius. E da palavra Varanda. E de sentar no alto para deixar as pernas balançando. E acabava de descobrir: gostava de se debruçar na janela quando ventava pra sentir o vento massagear o coro cabeludo. E amava a doçura do menino magrelo e discreto: ela sabia que ele sabia tudo.
Nos seus diários escreveu para depois (porque não era questão de ser agora, mas quase sempre era):
"Os outros têm uma espécie de cachorro farejador, dentro de cada um, eles mesmos não sabem. Isso feito um cachorro, que eles têm dentro deles, é que fareja, todo o tempo, se a gente por dentro da gente está mole, está sujo ou está ruim, ou errado... As pessôas, mesmas, não sabem. Mas, então, elas ficam assim com uma precisão de judiar com a gente..." - do João Guimarães Rosa, que esperto que era esse moço.
terça-feira, 6 de outubro de 2009
Era já cedo, ou já bem tarde, depende do jeito de quem olha. Sofia notara apenas o azul claro florescendo no céu, vendo-o deixar de ser escuro. E quis por a cabeça pra fora, e deixar o cabelo dançar em par com o vento. A manhã veio nascer. E ela foi deitar-se, já sentia sono...
(Morriam os abraços
E as moças feridas
Levantavam os braços
Pra pedir socorro
Pra fugir do choro
Pra esquecer dos moços)
Esqueceu-se hoje de limpar as janelas, e isso causou-lhe certo desconforto. Sem poder olhar pro outro lado, como manteria-se iluminada? A luz não entrava assim. Precisava manter-se pura, nua, sem colares, sem enfeites; precisava ficar na rua. Ficar de fora.
E esqueceu-se hoje de continuar sendo o que era agora - sem querer deixou alguém entrar em sua casa e mexer nos móveis devagar até que tudo parecesse um pouco diferente. Mas o bom disso, é que arrumou a bagunça logo.
Irritou-se de novo com as fantasias que tantos usavam ao seu redor - e muito pelo que ela própria usava, mas ao menos não podia ver o tempo todo: não era capaz de olhar pra própria testa o tempo todo.
Agoniou-se com as fronteiras. Ah, isso machucou bastante, feriu, queimou, ardeu. Viu-se envolvida no jogo chulo que jogam, viu-se contando mentiras bestas por orgulho mais besta ainda. Controlou-se habilmente - de jeito estupidamente inútil. Não soube onde pisar. Não fez o que queria fazer. Não entendeu o que queriam dizer. Não concordou com nada que lhe mostraram. Não teve eco em seu ser a sobriedade com que tentam viver. Riu de tudo, e nada mais quis falar.
Correu, enfim, para seu lugar seguro.
Houve um choro manso, depois quando deitada sentia o vento no rosto e imaginava o rosto da voz com quem falava. E hoje a voz estava doce, havia dias em que a essência era altruísta, e outros em que era de completo desprezo - mas não era bem assim? Até comentara com a amiga: pessoas bonitas demais, quando feias querem ser, são de forma devastadora - ("As partes desmatadas eram feias como o pecado, mas as bonitas eram especialmente bonitas.") ... e ainda há muito para se falar sobre isso.
Depois, bem no final do dia, houve um toque na porta, que ela de certa maneira já esperava. A presença alheia trouxe-lhe a alegria que precisava, colocou um sorriso em seu rosto e entupiu suas artérias de leveza. Pra dormir bem.
(Morriam os abraços
E as moças feridas
Levantavam os braços
Pra pedir socorro
Pra fugir do choro
Pra esquecer dos moços)
Esqueceu-se hoje de limpar as janelas, e isso causou-lhe certo desconforto. Sem poder olhar pro outro lado, como manteria-se iluminada? A luz não entrava assim. Precisava manter-se pura, nua, sem colares, sem enfeites; precisava ficar na rua. Ficar de fora.
E esqueceu-se hoje de continuar sendo o que era agora - sem querer deixou alguém entrar em sua casa e mexer nos móveis devagar até que tudo parecesse um pouco diferente. Mas o bom disso, é que arrumou a bagunça logo.
Irritou-se de novo com as fantasias que tantos usavam ao seu redor - e muito pelo que ela própria usava, mas ao menos não podia ver o tempo todo: não era capaz de olhar pra própria testa o tempo todo.
Agoniou-se com as fronteiras. Ah, isso machucou bastante, feriu, queimou, ardeu. Viu-se envolvida no jogo chulo que jogam, viu-se contando mentiras bestas por orgulho mais besta ainda. Controlou-se habilmente - de jeito estupidamente inútil. Não soube onde pisar. Não fez o que queria fazer. Não entendeu o que queriam dizer. Não concordou com nada que lhe mostraram. Não teve eco em seu ser a sobriedade com que tentam viver. Riu de tudo, e nada mais quis falar.
Correu, enfim, para seu lugar seguro.
Houve um choro manso, depois quando deitada sentia o vento no rosto e imaginava o rosto da voz com quem falava. E hoje a voz estava doce, havia dias em que a essência era altruísta, e outros em que era de completo desprezo - mas não era bem assim? Até comentara com a amiga: pessoas bonitas demais, quando feias querem ser, são de forma devastadora - ("As partes desmatadas eram feias como o pecado, mas as bonitas eram especialmente bonitas.") ... e ainda há muito para se falar sobre isso.
Depois, bem no final do dia, houve um toque na porta, que ela de certa maneira já esperava. A presença alheia trouxe-lhe a alegria que precisava, colocou um sorriso em seu rosto e entupiu suas artérias de leveza. Pra dormir bem.
domingo, 4 de outubro de 2009
Sofia por fim entendera algo, em algum lugar que não bem sabia.
Entendera que ás vezes, quando é difícil demais estar perto dos fantasmas, por ser demasiado dolorido ver a maldade crescer dentro de si, a coisa a se fazer é se afastar - mesmo que possa isso ser chamado de fraqueza - sem muita culpa, sem mais relutância. Ir pra onde não exista muita presença, aquela que causa o medo maior; fugir até se tornar mais forte, até conseguir encarar o grande monstro como um não-monstro... fugir até se tornar.
Mas hoje sentira mais que isso. Por mais que fosse pequeno, e que houvesse ainda muito amargor na boca, provara o gosto doce de um gesto. E as pequenezas já há muito lhe bastavam... então também estava bom agora.
Depois do café, e da mão apoiada em sua coxa com delicadeza, e do encontro confuso de olhos, e da torta redonda de chocolate, e do não-saber, foi-se para casa com alegria.
Entendera que ás vezes, quando é difícil demais estar perto dos fantasmas, por ser demasiado dolorido ver a maldade crescer dentro de si, a coisa a se fazer é se afastar - mesmo que possa isso ser chamado de fraqueza - sem muita culpa, sem mais relutância. Ir pra onde não exista muita presença, aquela que causa o medo maior; fugir até se tornar mais forte, até conseguir encarar o grande monstro como um não-monstro... fugir até se tornar.
Mas hoje sentira mais que isso. Por mais que fosse pequeno, e que houvesse ainda muito amargor na boca, provara o gosto doce de um gesto. E as pequenezas já há muito lhe bastavam... então também estava bom agora.
Depois do café, e da mão apoiada em sua coxa com delicadeza, e do encontro confuso de olhos, e da torta redonda de chocolate, e do não-saber, foi-se para casa com alegria.
terça-feira, 29 de setembro de 2009
Fragmentos. Vida vadia, preguiça.
De Sofia.
(Já que tanto tentara se livrar dos começos, que sempre muito artificiais lhe pareceram, resolveu escrever sem precisar pensar em um, já que tudo que sentia verdadeiro, nunca havia tido um começo definido; fosse como fosse, tanto faz. O ser pelo simples ser, que era o que talvez tanto faltasse.)
Na verdade sabia que era só voltar pra casa, nem mais sentir raiva dos outros precisava. Nem mesmo conseguia, o que lhe parecia muito estranho. Estava viva, ainda que muitos não notassem - e o mais bonito disso era a falta de vontade de parecer viva, não por agressão, simplesmente por quietude, quem sabe.
Bastou dizer "sim" na noite passada, e cair no novo como sempre quis. E escutar aquelas músicas, e reparar nos olhares dóceis, aqueles que permitem verdadeira aproximação, e andar pela rua fria e amarela, e ouvir coisas nojentas e achar graça. E comprar cerveja sem parar, e entrar na sala beje e sentar na poltrona gêlo ao lado do que lhe segurava, e observar os sorrisos sorrindo, e fumar. E perguntar. E estar bem. E entrar num carro que muito rápido ia, e sentir empolgação na pele e no ar, emanando.
Famintos eram sim. Todos bichos certos e errados e nunca importou mesmo...
E ver a claridade, e devorar a comida e se comunicar. Só por vontade.
E acordar feliz.
(Já que tanto tentara se livrar dos começos, que sempre muito artificiais lhe pareceram, resolveu escrever sem precisar pensar em um, já que tudo que sentia verdadeiro, nunca havia tido um começo definido; fosse como fosse, tanto faz. O ser pelo simples ser, que era o que talvez tanto faltasse.)
Na verdade sabia que era só voltar pra casa, nem mais sentir raiva dos outros precisava. Nem mesmo conseguia, o que lhe parecia muito estranho. Estava viva, ainda que muitos não notassem - e o mais bonito disso era a falta de vontade de parecer viva, não por agressão, simplesmente por quietude, quem sabe.
Bastou dizer "sim" na noite passada, e cair no novo como sempre quis. E escutar aquelas músicas, e reparar nos olhares dóceis, aqueles que permitem verdadeira aproximação, e andar pela rua fria e amarela, e ouvir coisas nojentas e achar graça. E comprar cerveja sem parar, e entrar na sala beje e sentar na poltrona gêlo ao lado do que lhe segurava, e observar os sorrisos sorrindo, e fumar. E perguntar. E estar bem. E entrar num carro que muito rápido ia, e sentir empolgação na pele e no ar, emanando.
Famintos eram sim. Todos bichos certos e errados e nunca importou mesmo...
E ver a claridade, e devorar a comida e se comunicar. Só por vontade.
E acordar feliz.
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Nenhum.
Com intenção nenhuma de elogio, até pelo contrário, só por dizer:
Sou leve demais. E só quem pesa um pouco, é que fica. Em algum lugar, em alguém.
Sou leve demais. E só quem pesa um pouco, é que fica. Em algum lugar, em alguém.
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